A GUARAPIRANGA
A Guarapiranga é um dos principais mananciais da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Abastece quatro milhões de pessoas residentes na zona sudoeste da capital paulista, incluindo as regiões de Santo Amaro, Morumbi, Pinheiros e Butantã, e parte da população de Taboão da Serra.
É o mais ameaçado dos mananciais que abastecem a cidade. Segundo dados do Diagnóstico Guarapiranga 2005, do Instituto Socioambiental, a população que vive ao redor da represa aumentou em quase 40% entre 1991 e 2000 e é estimada em aproximadamente 800 mil pessoas. A qualidade das águas dos rios e da represa piora ano a ano, a vegetação, indispensável para que a região possa produzir água, está cada dia mais escassa e a maior parte do esgoto coletado continua sendo despejada na represa, uma vez que não existem redes de exportação e transporte para fora da bacia.
De produtor de energia elétrica a produtor de água (clique para ver)
A represa do Guarapiranga foi construída com o represamento do Rio Guarapiranga pela Companhia Light & Power, com finalidade energética. A construção da barragem foi iniciada em 1906 e terminou em 1909. O lago ficou com um perímetro de 85 km, inundando uma área de 34 km² (3.400 hectares). Na sua parte mais funda, perto da barragem, a profundidade era de 13 m de profundidade e, no restante, a média era de 6 m.
A partir de 1928, a represa tornou-se a principal fonte de água para abastecimento público de São Paulo, fornecendo 86,4 milhões de litros de água por dia (vazão média de 1 m³/s) para a estação de tratamento de água de Teodoro Ramos.
Em 1958, com a construção da estação de tratamento do Alto da Boa Vista, a represa passou a fornecer 9,5 m³/s, tornando obrigatória a elevação do nível da lâmina d’água. Na época das cheias, o reservatório era mantido em níveis bem abaixo do máximo, para controlar as enchentes. Quando havia excesso de chuva, eram utilizados os descarregadores de fundo, que são os túneis que ligam a represa ao canal do Pinheiros.
Em 1976, houve uma cheia excepcional. O nível da represa subiu tanto que foi preciso reforçar a barragem com sacos de areia e reformular o sistema para que evitar que a água transbordasse, inundando a região do Socorro ou, pior ainda, fazendo ruir a barragem. Se isso acontecesse, a área alagada se estenderia até a região da Avenida Brasil.
O estado da nossa represa (clique para ver)
A tendência de ocupação do entorno da represa foi marcada, na década de 1920, por edificações residenciais e clubes, atraídos pela possibilidade de lazer e pela qualidade da paisagem. A tendência continuou nas décadas seguintes e nos anos 50 e 60, aumentaram as ofertas de loteamentos residenciais. Eram comuns chácaras, marinas e até instalações religiosas.
Os primeiros alertas para a degradação da qualidade da água e da região da bacia foram feitos na década de cinqüenta, quando a Sociedade Amigos de Interlagos já pedia a construção de um coletor (ou interceptor) de esgotos na margem direita.
A partir da década de 70, núcleos urbanos precários começaram a se instalar, caracterizados por lotes menores, inexistência de infraestrutura e densidades populacionais maiores. No final dos anos 80, a ocupação do entorno já causava impactos na represa. As florações de algas – resultantes da grande quantidade de matéria orgânica proveniente do despejo de esgotos na água – entupiam os filtros na captação de água e ameaçavam o abastecimento de água de três milhões de pessoas. Uma grande mortandade de peixes, noticiada em todos os veículos de comunicação, deu o alerta sobre a saúde da represa.
Naquele momento, o governo estadual iniciou a elaboração de um programa de recuperação ambiental da região. Conhecido como Programa Guarapiranga, foi implantado durante a década de 1990 e contou com recursos do Banco Mundial. Foram investidos mais de US$ 300 milhões na região, principalmente em redes de esgoto e reurbanização de favelas.
Os investimentos, no entanto, se mostraram insuficientes. Ao longo dos anos, a qualidade da água piorou e a quantidade disponível diminuiu, em função da erosão, do assoreamento, da poluição, do desmatamento e da retirada de grandes volumes de água da represa para abastecimento.
Com o objetivo de regularizar a vazão da Represa Guarapiranga, que já vinha sendo explorada acima de sua capacidade ao longo dos anos, foi construída a interligação do braço Taquacetuba da represa Billings com o rio Parelheiros, afluente da margem direita da Guarapiranga. O projeto previa a adução de dois mil litros por segundo, em uma primeira etapa, quantidade que, após a realização de testes para a comprovação de que a transposição traria impactos positivos para a Guarapiranga, poderia dobrar. Em função dos períodos de estiagem dos últimos anos, o Taquacetuba vem sendo usado no máximo de sua capacidade.
O estado da nossa água (clique para ver)
A qualidade da água dos rios e da represa piora ano a ano por duas grandes razões: apenas metade dos habitantes da região são atendidos por algum sistema de coleta de esgotos e a maior parte do esgoto coletado continua sendo despejado na represa. O custo de tratamento desta água é altíssimo.
Em 2003, mais da metade da área total da Bacia Hidrográfica da Guarapiranga encontrava-se alterada por atividades humanas. As áreas com vegetação remanescente de Mata Atlântica - essenciais para a manutenção da capacidade de produção hídrica e para o equilíbrio ambiental da região - ocupavam, apenas 37% da área da bacia.
Entre 1989 e 2003, as áreas urbanas aumentaram em 19% e mais da metade deste crescimento se deu sobre áreas com severas restrições à ocupação. Nesse mesmo período, a área ocupada pelo espelho d’água do reservatório diminuiu em 20% e a represa reduziu sua capacidade de armazenamento de água em 50%. As conseqüências foram a piora da qualidade da água, com a concentração da poluição; o aumento da quantidade de algas e plantas aquáticas e da mortandade de peixes, o encarecimento do tratamento da água; a dificuldade de eliminar o gosto e o cheiro da água tratada e enormes prejuízos para os clubes e marinas, devido à falta de freqüentadores.
O trecho sul do Rodoanel Mário Covas vai impactar 12% da área da Bacia Hidrográfica e, ao cortar e conectar os principais eixos de expansão urbana da região – estrada do M’Boi Mirim, estrada de Itapecerica da Serra e Av. Sadamu Inoue, vai induzir a ocupação na região.
Os números da bacia (clique para ver)
- Área da Bacia Hidrográfica da Guarapiranga: 63.911 hectares (639 Km²)
- Área da represa: 2.600 hectares (4% da área da bacia)
- Municípios parcialmente inseridos na área da bacia: 5 - Cotia, Embu, Juquitiba, São Lourenço da Serra e São Paulo
- Municípios totalmente inseridos na área da bacia: 2 - Embu-Guaçu e Itapecerica da Serra
- População abastecida pela represa: 3,8 milhões
- População residente na bacia: 800 mil pessoas
- Área ocupada por atividades humanas: 59% da bacia
- Área urbana: 17% da bacia
- Área com vegetação natural: 37% da bacia
Fonte: “Guarapiranga 2005 – Como e porque São Paulo está perdendo este manancial”, publicado pelo Instituto Socioambiental (ISA)